Friday, February 24, 2006

Trabalho o poema sobre uma hipótese: o amor
que se despeja no copo da vida, até meio, como se
o pudéssemos beber de um trago. No fundo,
como o vinho turvo, deixa um gosto amargo na
boca. Pergunto onde está a transparência do
vidro, a pureza do líquido inicial, a energia
de quem procura esvaziar a garrafa; e a resposta
são estes cacos que nos cortam as mãos, a mesa
da alma suja de restos, palavras espalhadas
num cansaço de sentidos. Volto, então, à primeira
hipótese. O amor. Mas sem o gastar de uma vez,
esperando que o tempo encha o copo até cima,
para que o possa erguer à luz do teu corpo
e veja, através dele, o teu rosto inteiro.

Nuno Júdice




Thursday, February 23, 2006

I.R.S.

É costume dizer-se, a propósito das recordações de acontecimentos passados, que a memória nos prega partidas. Quer a longo, quer a curto prazo, todos temos a capacidade de relembrar determinado momento que, por uma razão qualquer, não só, nos atravessou o cristalino, como ficou gravado, com mais ou menos impacto, na retina. E ficou para sempre ou para um sempre mais pequenino e auto-contido. Contudo, essa transição entre o "Sim, sei, claro que me lembro!" e o "Sei lá! Como é que te consegues lembrar dessas coisas?", não é de todo estanque e instantânea, ou seja, embora pareça haver um prazo, ainda se pode enviar uma declaração de I.R.S. (não sobre os rendimentos, neste caso seria o Imposto sobre o Relembrar de Situações) ao cérebro, uns dias depois de ter acabado o prazo de entrega! E é exactamente nesse momento que te apercebes que, apesar de na tampa estar uma data que dista mais ou menos uma semana daquele dia, o iogurte novo com L.Casei Imunitass, que iria ser o teu aliado este Inverno contra a incoveniente virose, ainda está bom!
Portanto, memórias com prazo, sem prazo ou fora de prazo; a ideia era contar uma história que, embora não sendo de certeza insólita, me é próxima, por isso validável. Passa-se com um grande amigo, com quem estou muitas vezes e em várias ocasiões, e passa bem pelo título ao descer até aqui, é que o T lembra-se de tudo o que comeu!!

Frases como "..nem me lembro o que comi ao almoço.."são indizíveis para ele. Não raras vezes, naqueles serões tomados de assalto em que todos se atropelam com exposições entusiasmadas começadas por "Tu lembras-te daquela vez em que...", era ver o T, com a sua típica rapidez e veemência, constatar que baralhavamos tudo, e que nesse dia não estávamos em San Sebastien porque tínhamos almoçado umas absolutamente soberbas tortilhas ao preço da chuva! Ah..pois é! Estavamos sim em Mérida! Ficámos tão enfartados que já só a altas horas da noite e já de viagem, mandámos para dentro, sem nenhuma convicção, uns snacks comprados na bomba! Não se lembram?(...) Qual quê? No dia em que perdi a carteira no metro em Nova Iorque, tínhamos literalmente aberto a Starbucks para tomar o pequeno-almoço, eu até pedi aqueles deliciosíssimos....
Impõe-se a pergunta.

Não sei o palato do T tem uma representação cerebral mais dominante ou se tão animado gosto por petiscos e iguarias faz com que estes façam Login, por defeito, na sua memória. Ementa é a password, claro está.
Desculpem o deslize académico, apenas em tom de comentário à figura, lá está o hipocampo, uma espécie de PDA do cérebro, onde se sabe estar representada a memória e que é activado sempre que necessitamos relembrar alguma coisa.
Toda a gente associa coisas a outras, cheiros a lugares e lugares a pessoas, músicas a fases da vida (é a memória associativa), eu associo pães com chouriço acabados de sair do forno aos fins de tarde em que tinha natação. Ou então coisas que não têm nada a ver como fiambre e a língua dos cães! E ainda, as mnemónicas que a gente decora e depois vai e espeta no exame!
No caso do T, temos a comida, os dias exactos do ano e os sítios mais rocambolescos!
No que diz respeito às memórias do T, eu acho que ele as devia convidar para jantar.